Os sentidos do “carnaval fora de época”

Voltar

 

Aconteceu24-01

Da Avenida Beira-Mar ao surgimento da Cidade do Carnaval. Esse foi o percurso traçado pelo evento que já faz parte do calendário oficial de férias da capital cearense: o Fortal. Completando 24 anos de existência ininterrupta em 2015, o chamado “carnaval fora de época” foi trazido para Fortaleza, em 1992, pela iniciativa de um grupo empresarial (Click Promoções) que enxergava a oportunidade de vultosos lucros pela exportação do axé da Bahia para outras cidades brasileiras.

De um começo tido por promissor para o comércio local, o evento logo passou a condição de megaprodução, atraindo “foliões” de toda parte do país desejosos de seguir os “trios elétricos” pela Avenida Beira-Mar. Show de luzes, multidão concentrada em um corredor extenso (formando o bloco), música alta e de apelo sexual, bem como um elevado consumo de bebida alcoólica. Estes seriam os elementos que demarcariam o sucesso do Fortal junto a seu público, em grande parte formada por jovens e adolescentes atraídos pela sua mensagem central: entrar na Folia.

Se nos lembrarmos de que o sentido original do “ser folião” é a inversão de papeis masculinos e femininos dos cortejos pagãos ou bailes portugueses tradicionais, logo perceberemos que o Fortal possui, para além da apologia ao sexo (liberal, com estranhos e sem culpa), outros dois significados ocultos: a relativização da questão do gênero e a realização de um culto pagão.

Quanto ao paganismo, vemos sua expressão no próprio vestuário adotado pelo evento. No período que antecede o mesmo, somos bombardeados por comerciais de TV ou mesmo matérias de jornais que fazem alusão à imensa procura pelos famosos “abadás”. O que seria um “abadá”? Uma resposta inocente seria afirmar que se trata de uma simples camisa que dá ao seu comprador acesso ao desfile de seu bloco. Só que uma camisa cujos valores variam entre 200 e 400 reais e cujo resultado é a satisfação humana pelo consumo do prazer alegórico, artificial e temporário.

O abadá é em si mesmo pós-moderno, colorido, brilhante, mutante, um adereço que dá início e fim ao consumo de um mundo também artificial, que promete a diversão e a felicidade mundanas. O Abadá se torna o adorno para seguir o cortejo do homem endeusado, celebrando a vida esvaziada de sentido do estéril mundo contemporâneo. Mais que isso, o abadá é o traje que ecoa uma palavra de origem africana, yorubá, trazida pelos negros malês, muçulmanos que aportavam na Bahia como escravos. Abadá faz também alusão às orações dos capoeiristas, como uma evocação, um culto performático, do corpo, da carne e dos espíritos.

Um culto que conseguiu novos adeptos a cada ano, a ponto dos números atuais apontarem para milhares de participantes. As vendas de abadás se tornaram notícia, em virtude da grande concorrência. No decorrer da década de 90, os números de blocos se multiplicaram, assim como o número de grupos musicais e turistas. O Fortal, desse modo, se tornou um culto pagão de cunho comercial. Alimenta a empresa capitalista e é alvo de interesse do empresariado local. Em 2005, adquiriu novo cenário, uma cidade de 23 mil hectares que levou seu próprio nome: cidade Fortal. Arena de blocos, arquibancadas e camarotes e área VIP. Está aí para todos verem o que o Fortal erigiu: uma micareta moderna, isto é, uma antiga festa popular francesa adornada por tecnologia e show pirotécnicos, uma mistura inusitada e sacralizada de batuques e guitarras.

O Fortal, assim, não pode ser encarado como mais uma festividade coletiva, inocente, quando seus atores aproveitam as férias para livrarem-se do stress do dia a dia. Trata-se de um mecanismo que adentra as casas e molda as visões, que atiça o aspecto pecaminoso de liberação sexual, que cria vertigens na maneira do homem enxergar e visualizar a felicidade como sendo sentida no mundo e mundana.

Um ator que é capaz de absorver seus ditos opositores. Tal se dá quando vemos que o festival católico “Halleluya”, realizado paralelamente ao Fortal como uma alternativa, tem se apresentado como o lugar da jovialidade, alegria e radicalidade, com shows de rock, samba, pagode, forró e axé. O Fortal não é um evento transitório, ele se rotiniza nas relações sociais e no comportamento cotidiano, combate continuamente o sagrado genuíno e ataca os valores de fé que não se rendem aos seus artifícios. Um “carnaval fora de época” que se prolifera para existir em “toda época”.

Por isso, as palavras de 1 João 2: 15-17 se tornam imperativas e oportunas, ao lermos que “Não ameis o mundo, nem o que há no mundo. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não vêm do Pai, mas sim do mundo. Ora, o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus, permanece para sempre”. Para o cristão é necessária à compreensão do que Paulo escreveu em Romano 12: 1 sobre o não conformar-se com este século, “mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”.

Ruben Maciel

AD Cidade - Todos os direitos reservados @ 2018 - Site desenvolvido por Leme Digital